
Mais uma vez tinha resolvido ficar em casa, sozinha com meus pensamentos. Quando minha aparente tranqüilidade foi interrompida com o toque do telefone - na linha, meu pai aos prantos, lamentando a morte do meu avô e seu pai.
Naquele momento mal sabia como agir. O que dizer por telefone num momento como este?
Eu queria ir correndo até ele e abraçá-lo, ou somente calar-me e chorar, mas a criação pouco afetiva que tive limitou minhas ações, engessou-me.
Queria calar a dor que maltratava aquele homem, a pessoa que muitas vezes preferiu se mostrar rude e indiferente ao sofrimento revelava-se do outro lado da linha, frágil e inconsolável, debulhado em lágrimas.
Como em outras ocasiões, decidi lutar contra minhas limitações, e demonstrar meus sentimentos, da melhor maneira que minha personalidade me permitisse fazer, através de ações subjetivas, repletas de sentimentos e significados.
No outro dia, acordei cedo, tomei um banho, e acompanhei meu pai, à despedida do meu avô.
Tive medo, certamente não saberia como me portar. Como agir diante da morte? A morte mais próxima que tive que lidar foi com a de um coelhinho que criava na minha infância.
Essa foi a segunda vez que vi meu pai chorar. A primeira, também me assustou muito. Ele deitou no meu colo, e eu desajeitadamente acariciava um de seus cachinhos, na tentativa de lhe dar o calor do meu toque, ou de ao menos mostrar, que meu coração, ao contrário do que minhas feições demonstravam, estava quebrantado, apertado, ao ver a figura que sempre me apresentou forte, se mostrando fraca, caída aos meus braços.
Chegando à casa do meu avô, pessoa que pouco tive contato, como os demais parentes por parte de pai, pude vislumbrar algumas coisas:
A casinha dele era bem humilde. Praticamente às margens de um rio da cidade, onde mulheres lavavam roupas e crianças nas muitas brincadeiras se arriscavam nas águas sujas.
Vi um amontoado de gente simples à porta, e um arranjo de flores dependurado na parede da entrada. Meu pai foi acostando seu carro, e atraindo a atenção daquela gente. Acho que sabia o porquê, e na medida em que o carro de luxo que nos encontrávamos se aproximava, mas eu me sentia pequena e ridícula.
Nunca gostei de me gabar com luxos. O simples me atrai.
Meu pai conseguiu conquistar algumas coisas boas na vida, financeiramente falando, à custo de muito trabalho, e hoje, ostenta algumas grandezas, com as quais, não me sinto bem, prefiro ficar à margem. Mesmo assim, me senti muito constrangida com as circunstâncias.
As paredes da casa traziam a cor do barro molhado que cobriam as ruas. O chão não tinha cerâmica, e o pequeno cômodo onde acomodaram o caixão, era iluminado por uma pequena luz amarela na direção do rosto do falecido. A porta do pequeno banheiro era um lençol estampado, e pessoas com rostos tristes passavam para lá e para cá com xícaras de café na mão.
O cheiro era de singeleza. Senhoras e senhores, com idades aproximadas à do meu avô sentados ao redor do caixão, discutiam como ele era forte, lutador, trabalhador...
“ - Era o homem do mato”, uma disse; outro: “ - Foi muito teimoso, não podia mais trabalhar na roça!”. Procuravam justificativas para a morte do pai, amigo, vizinho, marido, avô, que ali serenava seu último sono no caixão.
Não levava mais nada. Apenas uma etiqueta numa das bordas do caixão, descrevendo brevemente sua identidade: nome, idade e endereço onde residia.
Muitas pessoas passavam para vê-lo, até mesmo as que não o conheciam, somente para fazer uma reflexão acerca do destino que será de todos, ou para agir como abutres.
Vi chegar um senhor barbado. Cabeça branca, vestes encardidas, rugas grossas traçando o seu rosto. Ele vinha de cabeça abaixada, à passos lentos. Parou no meio do caminho, olhou para a urna funeral, e chorou copiosamente.
A cena era triste. Queria levantar e acolher aquele senhor, que logo após soube que era irmão do falecido, “morador do mato”, parente meu também, só não sei qual nome dar, deve ser de segundo, ou terceiro grau.
Não vou mentir. Tive inveja daquelas pessoas. Não da dor da morte, do luto, na qual eu também me encontrava. Mas da simplicidade, inocência, e dos valores que eu via em seus olhos.
Tive inveja daquele senhor que chorou copiosamente. Do capim que ele limpava no campo, das galinhas que ele alimentava, e depois matava para o sustento de sua família. Da hora que ele se levantava para começar a trabalhar, do café preto que tomava com macaxeira e manteiga da roça.
Das suas vestes simples, lavadas ao sabão de pedra na beira do riacho. Da sua pouca vaidade ou nenhuma.
Naquele momento meu pai se levantou da cadeira, e foi até ele, o abraçou, e choraram juntamente.
Senti muito orgulho da minha família, das minhas raízes. Vi que minhas origens são compostas por gente muito importante.
Fiquei admirada de como foi a vida do meu avô. Imponente, morreu com seu bigode, e ai da enfermeira que o tirasse no leito de morte! Sua última vontade foi feita.
Fui apresentada a algumas pessoas, tios e primos que não conhecia, e no fim, despedi-me.
Saí de alma lavada. Apesar da tristeza, sabia que meu avô havia cumprido a sua missão aqui na terra.
Sabia que meu pai havia entendido o carinho que fiz ao acompanhá-lo.
E melhor que isso, me senti honrada, muito orgulhosa do sobrenome que carrego na identidade, e do sangue que trago em minhas veias.